Desânimo. Ou: Como estão as pessoas que se chegam às Escrituras?


“Pois tudo o que foi escrito no passado, foi escrito para nos ensinar, de forma que, por meio da perseverança e do bom ânimo procedentes das Escrituras, mantenhamos a nossa esperança” – Romanos 15:4 NVI
Gosto da tradução da NVI para esta passagem. A versão Almeida Revista e Atualizada, a qual também costumo ler, trás o seguinte: “Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança” – Rm 15:5. A partir do original grego do Novo Testamento, as duas traduções são possíveis.
Um dos muitos ensinos de Jesus é a realidade de que teremos “aflições” (Jo 16:33). Essa palavra no grego é θλιψις (thlipsis), que significa o ato de prensar, imprensar, pressão; e, metaforicamente, opressão, aflição, tribulação, angústia, dilemas. No seu sentido figurado, é aquilo que pressiona o espírito¹. Todos nós experimentamos isso, no passado, no presente e ainda haverá tal no futuro.
A solução para muitos dos nossos desânimos está, portanto, na leitura devocional, viva das Escrituras, iluminada pelo Espírito Santo do Senhor. Entretanto, nem sempre as pessoas desfrutam disso. Buscam a Palavra de Deus, mas continuam com suas aflições. Mas… Como assim? Por quê? Será que a Bíblia falhou? Examinemos a seguinte passagem de Hebreus: “Temamos, portanto, que, sendo-nos deixada a promessa de entrar no descanso de Deus, suceda parecer que algum de vós tenha falhado. Porque também a nós foram anunciadas as boas-novas, como se deu com eles; mas a palavra que ouviram não lhes aproveitou, visto não ter sido acompanhada pela fé naqueles que a ouviram” (4.1-2). E essa do capítulo 11, versículo 6, ainda de Hebreus: “De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam”.
Então, sabemos pela Palavra que nosso ânimo, consolação, perseverança, paciência, procedem das Escrituras, que é Deus que nos concede essas coisas, sendo Sua Palavra nosso alimento (Mt 4:4). Entrementes, é necessário achegar-se a Ele, por meio da Bíblia, espiritualmente, com fé, crendo que Ele recompensará essa busca, concedendo graça e tudo o precisamos para enfrentar as aflições. Apesar disso, existe a questão: como está este ser humano que se aproxima da leitura da Bíblia. Como está este cristão?
Muitas vezes as pessoas que buscam a Palavra de Deus estão agitadas, estimuladas por este mundo (com todo consumo de bens, açúcar em excesso, motivações carnais, confusões pelo excesso de opções em tudo que temos neste século, sexualizadas, erotizadas, aterrorizadas com tantas más notícias e por ai vai). Mesmo o cristão, pois ele está no meio do mundo, neste século, e essas influências torturam cada alma: porque este justo [o contexto está falando de Ló, sobrinho de Abraão], pelo que via e ouvia quando habitava entre eles, atormentava a sua alma justa, cada dia, por causa das obras iníquas daqueles” – 2 Pedro 2:8.
Quando não achamos paz e consolo, alívio e ânimo para nossas aflições na leitura da Bíblia, um dos grandes motivos pode ser pelo modo como vamos a ela. Queremos encaixar no meio do nosso dia somente uma leitura da Bíblia entremeada aos afazeres. Claro que ela pode – e é – eficaz mesmo assim, porém, deste modo não absorveremos dela toda a nossa necessidade. Eu uso um plano de leitura diário, e incentivo a igreja a usar também, mas isso não pode ser o todo que buscamos da Palavra de Deus. E, além disso, precisamos de leituras em momentos separados, com tempo – e cabeça – livres para isso. E, por fim, que é o ponto que quero chegar aqui: o “como”, o “modo” como nos achegamos à fonte. Precisamos estar mais relaxados, concentrados, não distraídos ou embalados por este mundo. E isso, naturalmente, remete ao jejum. Jejum de muita coisa! Jejum de consumo, jejum de alimentos, jejum de qualquer coisa que me deixe “ligado”, “animado”, “motivado”, segundo o curso dessa era.
O mundo vai sempre lhe animar com uma música a mais, um outro ritmo, com luzes, movimento, uma batida diferente, uma cena “legal” na televisão… Mas, quando tudo isso acaba… o que resta? Nada! Nada, porque essas coisas não produzem frutos, são o que são somente no momento, então precisam estar sempre acontecendo para o “animar” o homem novamente. Não alimentam, não nutrem. Às vezes o jejum não é somente a abstenção, mas, neste contexto que está sendo exposto, é até a redução de algumas coisas, de alguns estímulos. Redução até daquilo que é bom, não está errado, porém, em excesso ou com incorreto uso (modo, momento), tem me afastado de Deus. “Jesus, porém, respondeu: Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” – Mt 4:4. Não só de pão. Ou seja, o alimento não é errado, entretanto não é tudo. 
E muitas outras coisas que não são erradas também precisa ser encaradas como “não é tudo”. Não é só porque “não é errado”, em si, que eu posso exagerar na dose. “Não só de pão” dá um limite de uma coisa e a necessidade de outra; traz o entendimento de que o que o homem precisa para viver não está só no natural. Não adianta o homem somente se encher de coisas boas aqui neste mundo, contudo, para viver, precisa do que procede de Deus mesmo, diretamente – a Sua Palavra. 
A angústia da alma não se cura só com o pão; ou, com o que é desta terra. Quando sente angústia, o homem do século 21 corre para o consumo de coisas dessa terra, a alegria dura um momento e o choro volta a seguir. O homem precisa é buscar a Deus logo que sente a angústia! Isso fará dele vencedor sobre as aflições. Se ele buscou primeiro o que é terreno, precisa remover esse excesso (jejum), para, então, buscar a Deus, com tranquilidade. Desta forma, se este for o problema, encontrará mais fácil as fontes de águas vivas! Não um conhecimento sobre a Palavra de Deus; mas, a Palavra de Deus mesmo, como alimento entrando na alma. 
Uma dica: não faça isso com atos “heroicos”, como sair daqui e empreender um jejum gigantesco. Comece no cotidiano. Reduza aquilo com que é motivado pelo mundo (mesmo o que é certo), e retire o que é errado. Se você for “heroico”, verá que dura só aquele momento – isso, muitas vezes, é mundano também. As pessoas desconsideram o dia a dia, mas é nele que está a soma para todos os resultados.
Nem sempre é o desânimo em si, e sim a FORMA como você está buscando a Deus o motivo pelo qual suas aflições não passam.
Pense nisso. Um abraço,
Pr. Leandro Hüttl Dias
www.leandrohdias.com

¹Strong, James: Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong. Sociedade Bíblica do Brasil, 2002.

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