A fé se arrisca a falhar

Por A. W. Tozer
Neste mundo os homens são julgados pela habilidade com que fazem as coisas. São avaliados de acordo com a distância que cobriram na escalada do monte da realização. No sopé jaz o fracasso; no topo o sucesso completo; e entre esses dois extremos a maioria dos homens civilizados sua e labuta, da juventude à velhice.
Alguns desistem e escorregam para o sopé, e se tornam ocupantes da fileira do Raspa-Chão. Ali, perdida a ambição e rota à vontade, subsistem graças a empréstimos, até a natureza executar-lhe a hipoteca e a morte os levar.
No alto estão os poucos que, por uma combinação de talento, árduo trabalho e boa sorte, conseguem chegar ao pico, e ao luxo, fama e poder que ali se encontram. Mas nisso tudo não há felicidade. O esforço para ter sucesso exerce muita pressão sobre os nervos. A excessiva preocupação com a luta pela conquista aperta a mente, endurece o coração e veda mil visões fulgurantes que poderiam ser desfrutadas se tão somente houvesse vagar por notá-las.
O homem que chega ao pináculo raramente é feliz por muito tempo. Logo é devorado por temores de que pode escorregar uma estaca abaixo e ser forçado a dar seu lugar a outro. Acham-se exemplos disto no modo febril como o artista observa a classificação do seu valor, e como o político examina as pesquisas de sua popularidade.
Faça-se saber a um magistrado eleito que um levantamento de dados mostra que ele é dois por cento menos popular do que antes, e ele começa a suar como um homem a caminho da prisão. O jogador de futebol vive por médias de rendimento em campo, o homem de negócios por seu gráfico ascendente, e o concertista pelo medidor de seus aplausos. Não é incomum suceder que o lutador desafiante no ringue chore abertamente por não conseguir nocautear o campeão. Ser o segundo colocado o deixa completamente desconsolado; tem de ser o primeiro para ser feliz.
Esta mania de sucesso seria uma boa coisa, caso fosse deslocado para cumprimento do propósito de Deus. Mas o pecado retorceu este impulso e fez dele uma cobiça egoística pelo primeiro lugar e pelas honras das primeiras posições. O mundo inteiro dos homens é arrastado por esta cobiça, como por uma correnteza feroz, e não há escape.
Quando vemos a Cristo entramos num mundo diferente. O Novo Testamento nos apresenta uma filosofia espiritual infinitamente mais elevada do que a que motiva o mundo, e inteiramente contrária a ela.
Conforme o ensino de Cristo, os humildes de espírito são bem-aventurados; os mansos herdam a terra; os primeiros são os últimos, e os últimos são os primeiros; o maior homem é aquele que serve melhor os outros; e o que perde tudo é por fim possuirá tudo; o homem do mundo, coroado de êxito, verá os tesouros que acumulou serem varridos pela tempestade do juízo; o mendigo justo vai para a coroação eterna, enquanto o rico soberbo segue para a rejeição eterna.
Jesus morreu em aparente fracasso, desacreditado pelos líderes religiosos, rejeitado pela sociedade e abandonado por seus amigos. O homem que o mandou para a cruz foi o estadista de sucesso cuja mão o mercenário político beijara. Coube a ressurreição demonstrar quanto Jesus havia triunfado e quão tragicamente o governador tinha fracassado.
Contudo, a impressão que se tem hoje é que os cristãos não aprenderam nada. Continuamos vendo os homens julgando segundo critérios humanos! Quanto trabalho religioso feito com o ativismo por motivações erradas! Quantas horas de orações vãs são gastas para pedir a Deus que abençoe projetos para glorificação de homens! Quanto dinheiro é gasto para promoção de exibições carnais!
O cristão verdadeiro deve fugir disto tudo e examinar lá no fundo seus motivos íntimos. Ninguém merece sucesso enquanto não estiver disposto a fracassar. Ninguém é digno de sucesso em atividades cristãs enquanto não quiser que a honra da vitória vá para outrem, se esta for a vontade de Deus.
Deus talvez permita que o seu servo tenha êxito depois de tê-lo disciplinado, a tal ponto que ele não precise vencer para ser feliz. O homem a quem o sucesso exalta e o fracasso abate é carnal ainda. Na melhor das hipóteses, o fruto que der terá bicho.
Deus permitirá o sucesso a seu servo quando este aprender que o sucesso não o torna mais caro a Deus. Não podemos comprar o favor de Deus com grandes reuniões ou apresentando conversos ou fazendo obras embaladas por esforço humano. Todas estas coisas podem ser realizadas sem auxílio do Espírito Santo. Uma boa personalidade e um penetrante conhecimento da natureza humana é tudo que qualquer pessoa precisa para ser um sucesso nos círculos religiosos hoje em dia.
A nossa honra está em sermos precisamente o que Jesus foi e é. Ser aceito pelo que o aceitam, rejeitado pelos que o rejeitam, amado pelos que o amam e odiado pelos que o odeiam – que maior glória poderia advir alguém?
Podemos dispor-nos a seguir a Cristo rumo ao fracasso. A fé se arrisca a falhar. A ressurreição e o juízo demonstrarão perante os mundos todos, quem ganhou e quem perdeu. Podemos esperar.”
Texto extraído do livro “O Melhor de A. W. Tozer” – Editora Mundo cristão; recebido por e-mail do irmão Sergio Muller de Joinville no dia 11.

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